A polêmica da IA que recria pessoas falecidas
Uma nova ferramenta de inteligência artificial está no centro de uma intensa discussão global, após um vídeo promocional atingir mais de 4,1 milhões de visualizações. Criada pela startup americana 2Wai, a tecnologia promete recriar digitalmente pessoas falecidas, gerando avatares interativos que mimetizam voz, aparência e até “memórias” dos entes queridos que já se foram. A inovação, embora vista por alguns como uma forma de preservar laços, levantou sérias preocupações éticas sobre o impacto no processo de luto e na saúde mental.
A repercussão explodiu quando Calum Worthy, um dos cofundadores da 2Wai, divulgou um vídeo demonstrando a funcionalidade da ferramenta. A proposta de manter os falecidos “vivos” digitalmente rapidamente viralizou, mas também atraiu uma onda de críticas, questionando os limites da tecnologia e o risco de substituir a experiência real do luto por interações artificiais.
Como a inteligência artificial da 2Wai funciona?
O vídeo promocional da 2Wai apresenta uma narrativa emocional e futurista. Ele mostra uma mulher grávida conversando com uma versão digital de sua mãe já falecida através de um celular. A história avança, e a “avó virtual” é vista lendo histórias para o bebê e, anos depois, conversando normalmente com o menino em seu retorno da escola. A cena final é com o jovem, agora adulto, anunciando à avó digital que ela se tornará bisavó, encerrando com a mensagem impactante: “Com a 2Wai, três minutos podem durar para sempre.”
Calum Worthy descreveu a plataforma como “um arquivo vivo da humanidade”, fazendo a pergunta: “E se os entes queridos que perdemos pudessem fazer parte do nosso futuro?”. O aplicativo, já disponível para iPhone e com versão para Android em desenvolvimento, permite a criação dos chamados HoloAvatars, que a empresa garante “se parecem e falam como você, e até compartilham as mesmas memórias”.
As preocupações éticas e a sombra de Black Mirror
A controvérsia em torno da IA que recria pessoas falecidas foi inevitável, com muitos usuários nas redes sociais traçando paralelos diretos com “Be Right Back”, um episódio da série “Black Mirror” que explora justamente essa premissa. Os comentários variaram de “assustador” e “demoníaco” a “algo que deveria ser destruído”. A representação de uma criança desenvolvendo laços profundos com uma recriação digital da avó foi um dos pontos mais sensíveis e criticados.
Especialistas e usuários alertam que essa prática pode distorcer memórias reais, dificultar o processo natural de aceitação da perda e, potencialmente, criar uma dependência emocional prejudicial de um avatar. Outras questões levantadas incluem o uso comercial do luto, a obtenção de consentimento de pessoas falecidas para sua recriação e os impactos psicológicos de interações tão realistas, especialmente considerando o avanço da robótica, que poderia dar versões físicas a esses avatares digitais.
Tecnologia e luto: um futuro incerto
Apesar da intensa controvérsia e das classificações de “ficção científica”, o vídeo da 2Wai continua a acumular visualizações, provando o fascínio e a divisão que a tecnologia gera. Enquanto alguns veem a possibilidade de preservar histórias e vozes como um avanço significativo, muitos outros argumentam que a humanidade ainda não está preparada para lidar com os limites éticos impostos por uma inteligência artificial tão poderosa. O debate sobre a recriação digital de pessoas falecidas está apenas começando, e suas implicações éticas e sociais prometem ser discutidas por muito tempo.









